Semana Nacional da Saúde Vascular: por que precisamos falar mais sobre a nossa circulação?
Quando pensamos em doenças vasculares, provavelmente as varizes estão entre as primeiras condições que vêm à mente. Elas são tão conhecidas que muitas pessoas chegam ao consultório já sabendo o diagnóstico: reconhecem as veias dilatadas, relacionam alguns sintomas à circulação e procuram diretamente um angiologista ou cirurgião vascular.
Mas essa realidade muda completamente quando falamos de outras doenças vasculares.
Aneurismas da aorta, doença arterial obstrutiva periférica, pé diabético, e doenças linfáticas, por exemplo, ainda são pouco reconhecidos pela população como problemas relacionados à circulação.
E algumas dessas doenças podem permanecer silenciosas durante anos.
A trombose venosa talvez ocupe uma posição intermediária. É uma condição bastante conhecida, mas ainda cercada por dúvidas e mitos sobre suas causas, sintomas, formas de prevenção e tratamento.
É justamente por isso que iniciativas de conscientização sobre saúde vascular são tão importantes.
O que é a Semana Nacional da Saúde Vascular?
Há mais de uma década, a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular desenvolve ações de conscientização durante o mês de agosto, período que ficou conhecido como Agosto Azul e Vermelho, dedicado à prevenção e ao diagnóstico das doenças da circulação.
Em 2026, essa mobilização ganhou reconhecimento oficial.
A Lei nº 15.470, de 16 de julho de 2026 instituiu a Semana Nacional da Saúde Vascular, que passa a ser celebrada anualmente na semana que compreende o dia 17 de agosto.
O objetivo vai muito além de estabelecer uma data comemorativa.
A proposta é estimular ações educativas e chamar atenção para a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento das doenças vasculares.
Por que precisamos falar sobre saúde vascular?
Porque os números ajudam a mostrar a dimensão do problema.
Grande parte das doenças arteriais está associada aos mesmos fatores de risco responsáveis por algumas das principais doenças crônicas da população brasileira:
- hipertensão arterial;
- diabetes;
- obesidade;
- alterações do colesterol;
- tabagismo;
- sedentarismo;
- envelhecimento.
O relatório mais recente do Vigitel Brasil 2006–2024, do Ministério da Saúde mostra uma evolução particularmente preocupante de alguns desses fatores.
Em 2024, entre os adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal:
25,7% apresentavam obesidade.
Isso significa que aproximadamente um em cada quatro adultos se enquadrava no critério de obesidade. Em 2006, eram 11,8%.
Outro dado chama atenção: 62,6% dos adultos apresentavam excesso de peso.
A hipertensão também vem aumentando. A proporção de adultos que referiram diagnóstico médico de pressão alta passou de 22,6%, em 2006, para 29,7% em 2024 — praticamente três em cada dez adultos.
No caso do diabetes, a frequência de diagnóstico médico aumentou de 5,5% para 12,9% no mesmo período.
O tabagismo apresenta uma trajetória diferente e representa uma importante conquista da saúde pública brasileira. A proporção de fumantes diminuiu de 15,7%, em 2006, para 11,5% em 2024.
Apesar da redução, ainda estamos falando de milhões de pessoas expostas a um dos mais importantes fatores de risco para doenças cardiovasculares, doença arterial periférica e aneurisma da aorta.
Esses dados ajudam a compreender por que a prevenção vascular não deve começar quando surge uma complicação.
Ela deve começar muito antes.
Doença arterial e amputações: quando a circulação chega a um estágio avançado
Uma das consequências mais graves da doença arterial periférica é a perda de tecidos do pé ou da perna, especialmente quando a redução da circulação se associa ao diabetes e às infecções.
Dados do Sistema Único de Saúde ajudam a mostrar a dimensão desse problema.
Segundo levantamento baseado no DATASUS, o Brasil registrou 31.190 amputações de membros em 2022, uma média de aproximadamente 85 amputações por dia. A informação também foi destacada pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde – CONASS.
O DATASUS disponibiliza os bancos nacionais de internações hospitalares do SUS que permitem acompanhar a evolução desses procedimentos ao longo do tempo.
Por trás de cada amputação existe muito mais do que um procedimento cirúrgico.
Existem perda de mobilidade, necessidade de reabilitação, redução da autonomia, afastamento profissional e importantes consequências familiares e sociais.
Por isso, em pacientes com diabetes ou doença arterial periférica, cuidar dos pés e reconhecer precocemente alterações da circulação pode fazer uma grande diferença.
AVC também tem uma importante relação com a circulação
Embora o acidente vascular cerebral — AVC — seja uma doença que se manifesta neurologicamente, sua própria definição revela sua relação direta com o sistema vascular.
A maior parte dos AVCs é do tipo isquêmico, quando ocorre interrupção do fluxo sanguíneo para determinada região do cérebro.
Entre as possíveis causas estão a aterosclerose das artérias responsáveis por levar sangue ao cérebro — incluindo as artérias carótidas — e os fenômenos embólicos, nos quais coágulos formados em outros locais, principalmente no coração e nos grandes vasos, migram para a circulação cerebral.
Por isso, muitos dos fatores de risco que tentamos controlar na prevenção das doenças arteriais também são importantes para prevenir AVC:
hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo.
O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar incluem o AVC entre as principais condições vasculares agudas dentro das estratégias de organização das linhas de cuidado.
Aneurisma da aorta: uma doença que pode ser silenciosa
O aneurisma da aorta abdominal ocorre quando há uma dilatação anormal da aorta, a maior artéria do organismo.
O principal problema é que, na maioria dos pacientes, essa dilatação não produz sintomas.
Em outras palavras, uma pessoa pode apresentar um aneurisma durante anos sem saber.
Segundo a Diretriz Brasileira para o Tratamento do Aneurisma da Aorta Abdominal, disponível na CONITEC, estima-se uma prevalência ao redor de 2% aos 60 anos, chegando a aproximadamente 5% após os 70 anos. A doença é duas a três vezes mais frequente em homens.
O tabagismo é um dos seus principais fatores de risco.
A importância de identificar o aneurisma antes de sua ruptura é enorme. Quando descoberto precocemente, ele pode ser acompanhado periodicamente e, quando necessário, tratado de maneira programada.
E o exame utilizado para o rastreamento é simples: ultrassom da aorta abdominal.
Documentos do próprio Ministério da Saúde consideram como população particularmente relevante para rastreamento os homens entre 65 e 75 anos que fumam ou já fumaram, utilizando ultrassonografia abdominal.
Varizes não são apenas uma questão estética
As varizes dos membros inferiores são provavelmente a doença vascular mais conhecida pela população.
Porém, ainda são frequentemente interpretadas apenas como um problema estético.
A realidade é diferente.
As varizes fazem parte de um espectro chamado doença venosa crônica. Em suas formas mais avançadas, podem surgir:
- inchaço nas pernas;
- alterações da pele;
- escurecimento da região próxima aos tornozelos;
- inflamações;
- tromboses venosas superficiais;
- endurecimento da pele;
- úlceras venosas.
As úlceras venosas podem permanecer abertas durante meses, apresentar recorrências e causar importante impacto sobre mobilidade, trabalho e qualidade de vida.
Um relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS — CONITEC ressalta uma dificuldade importante: ainda existem poucos dados epidemiológicos nacionais sobre úlcera venosa.
Os estudos utilizados no documento estimam que aproximadamente 0,1% a 0,3% da população apresente uma úlcera venosa ativa. Entre pessoas com 65 anos ou mais, estudos citados encontraram prevalência de aproximadamente 1,69%.
Isso demonstra como uma doença aparentemente simples pode evoluir para uma condição crônica e incapacitante.
E o sistema linfático?
Quando falamos de circulação, geralmente pensamos primeiro em artérias e veias.
Mas existe um terceiro componente fundamental: o sistema linfático.
O linfedema ocorre quando existe dificuldade de drenagem da linfa, levando ao acúmulo progressivo de líquido e proteínas nos tecidos.
Pode ser uma condição congênita ou surgir secundariamente a:
- cirurgias;
- tratamentos oncológicos;
- radioterapia;
- infecções;
- alterações venosas;
- traumatismos.
Sem tratamento adequado, o aumento persistente do membro pode provocar alterações da pele, infecções recorrentes e limitação funcional.
As doenças linfáticas ainda recebem menos atenção do que deveriam, inclusive porque muitos pacientes convivem durante anos com inchaço sem procurar uma avaliação especializada.
Como cuidar melhor da saúde vascular?
Não existe uma fórmula exclusivamente vascular para prevenção.
Grande parte das medidas capazes de proteger artérias, veias e microcirculação são as mesmas recomendadas para uma vida mais saudável:
- não fumar;
- controlar adequadamente a pressão arterial;
- manter o diabetes sob controle;
- acompanhar colesterol e triglicérides;
- manter um peso saudável;
- realizar atividade física regularmente;
- adotar uma alimentação equilibrada.
Essas medidas ajudam não apenas a prevenir doenças vasculares, mas também reduzem o risco de infarto, AVC, doença renal e diversas outras condições crônicas.
Entretanto, prevenção não significa apenas mudar hábitos.
Significa também reconhecer quem apresenta maior risco e investigar doenças que podem permanecer silenciosas.
Quando procurar um angiologista ou cirurgião vascular?
Alguns sinais e situações merecem avaliação vascular, especialmente quando persistentes ou associados a fatores de risco.
Entre eles estão:
- dor nas pernas durante a caminhada;
- pés constantemente frios;
- feridas nos pés ou pernas que demoram a cicatrizar;
- varizes acompanhadas de dor, edema ou alterações da pele;
- inchaço persistente de uma ou ambas as pernas;
- aparecimento súbito de edema ou dor em uma perna;
- diabetes associado a alterações nos pés;
- histórico familiar de aneurisma da aorta;
- tabagismo associado a idade avançada;
- doença aterosclerótica conhecida.
A avaliação médica permite determinar se existe necessidade de exames complementares, como o ultrassom Doppler vascular, e estabelecer estratégias de prevenção, acompanhamento ou tratamento.
A mensagem da Semana Nacional da Saúde Vascular
Depois de muitos anos trabalhando com doenças da circulação, considero que uma das mensagens mais importantes que podemos transmitir é bastante simples:
não precisamos esperar que uma doença vascular se torne grave para começar a cuidar dela.
Muitas das complicações que tratamos diariamente poderiam ser reduzidas por meio do controle adequado dos fatores de risco, reconhecimento dos primeiros sinais e diagnóstico precoce.
É justamente essa a importância da Semana Nacional da Saúde Vascular.
Mais do que uma data no calendário, ela representa uma oportunidade de colocar a circulação em evidência antes que a doença nos obrigue a fazê-lo.
Quer saber mais sobre saúde vascular?
No Blog Vascular da Clínica Fluxo, publicamos regularmente conteúdos sobre varizes, trombose, doença arterial, aneurismas, carótidas, linfedema, ultrassom Doppler e prevenção vascular.
Você também pode acompanhar os conteúdos em vídeo no canal do Dr. Robson Miranda no YouTube.
Se houver sintomas, fatores de risco ou dúvidas sobre a circulação, a avaliação por um angiologista ou cirurgião vascular permite definir de maneira individualizada quais cuidados e exames são indicados.
Dr. Robson Barbosa de Miranda
Angiologista, Cirurgião Vascular e Ecografista Vascular
CRM 64375 | RQE 18402 e 184021
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação médica individualizada.




