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A palavra trombose costuma assustar e gerar muitas dúvidas no dia a dia. Afinal, trata-se de um termo abrangente que envolve diferentes condições circulatória. No entanto, a informação e o diagnóstico precoce são fundamentais: o tromboembolismo venoso é uma condição frequente, grave, mas que na maioria das vezes pode ser prevenida e tratada com eficácia.

Neste artigo, a equipe da Clínica Fluxo explica em detalhes o que é a trombose, como ela ocorre, seus principais sintomas de alerta, formas de diagnóstico e as melhores práticas para proteger a sua saúde vascular.


O que é trombose e como ela se desenvolve?

Em condições normais, o sangue precisa circular livremente e de forma totalmente fluida por dentro dos vasos sanguíneos. A trombose ocorre quando essa fluidez é interrompida pela formação de uma massa sólida de sangue — o chamado trombo ou coágulo — em um local onde ele não deveria existir, provocando a obstrução parcial ou total do fluxo sanguíneo.

Para compreender a doença, é fundamental distinguir os dois principais tipos de vasos afetados:

  1. Trombose Venosa: Ocorre nas veias, vasos responsáveis por retornar o sangue dos membros e tecidos em direção ao coração. Quando um trombo se forma nas veias profundas, quase sempre nos membros inferiores (pernas e coxas), chamamos de Trombose Venosa Profunda (TVP). Quando o trombo é formado nas veias superficiais (como as veias safenas ou cefálicas), chamamos de Trombose Venosa Superficial (TVS), ou tromboflebite. O bloqueio da veia impede a drenagem adequada e gera estase (estagnação) sanguínea, levando a edema e dor.
  2. Trombose Arterial: Ocorre nas artérias, responsáveis por transportar sangue oxigenado e nutrientes do coração para o restante do corpo. A obstrução de uma artéria impede a chegada de oxigênio aos tecidos, provocando isquemia. Isso pode resultar em eventos críticos como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) ou gangrena nos membros inferiores.

O tripé da formação do trombo: A Tríade de Virchow

A base fisiopatológica da trombose é explicada por um mecanismo clássico descrito pelo médico alemão Rudolf Virchow, conhecido como Tríade de Virchow. Para que o coágulo se forme, deve haver a presença de ao menos um dos seguintes fatores (sendo ainda mais perigosa a combinação dos três):

  1. Estagnação do fluxo sanguíneo (estase): Quando o sangue corre de maneira excessivamente lenta, como em períodos de imobilização prolongada ou repouso no leito.
  2. Lesão na parede do vaso (endotélio): Alterações provocadas por traumas mecânicos, cirurgias, inflamações ou placas de gordura (aterosclerose) que deixam a superfície interna do vaso irregular.
  3. Hipercoagulabilidade do sangue: Alterações químicas ou genéticas que aumentam a tendência biológica de coagulação do sangue.

Sintomas e sinais da Trombose Venosa Profunda: Sinais aos quais você deve ficar atento

A TVP atinge na maioria das vezes apenas um dos membros (quadro unilateral). Os sinais clínicos mais frequentes incluem:

  • Inchaço (edema): Aumento súbito ou progressivo do volume da perna acometida (panturrilha ou coxa).
  • Dor e sensibilidade local: Dor em aperto, latejamento ou queimação, principalmente ao caminhar ou ao apalpar a musculatura da panturrilha.
  • Calor local: A pele sobre a região afetada torna-se quente ao toque.
  • Alteração na coloração da pele: O membro pode apresentar vermelhidão (eritema) ou uma tonalidade arroxeada/azulada decorrente da congestão venosa.
  • Endurecimento (empastamento) muscular: A musculatura da perna pode ficar mais tensa e rígida.

> Atenção: Cerca de metade das pessoas com TVP pode não apresentar sintomas aparentes ou manifestar sinais muito frustros. Esse silêncio clínico é comum em pacientes hospitalizados, acamados ou com alta tolerância à dor.


As complicações graves da trombose

A busca por atendimento médico imediato é essencial para evitar duas consequências graves:

1. Embolia Pulmonar (EP) — Emergência médica imediata

Se uma parte do trombo formado na veia se desprender, esse fragmento viaja pela circulação venosa em direção ao coração e passa para as artérias do pulmão. Ao alcançar um vaso de menor calibre, o coágulo se aloja e bloqueia o suprimento sanguíneo pulmonar, gerando uma embolia pulmonar.

Procure imediatamente um serviço de pronto atendimento se notar sintomas na perna acompanhados de:

  • Falta de ar súbita (dificuldade respiratória).
  • Dor aguda no peito que piora ao respirar fundo ou tossir.
  • Aceleração repentina dos batimentos cardíacos (palpitações).
  • Tosse seca ou com expectoração de sangue.
  • Tontura grave, queda de pressão ou desmaio.

Saiba mais sobre Embolia Pulmonar

2. Síndrome Pós-Trombótica (SPT) — Sequela a longo prazo

Mesmo após a resolução da fase aguda, cerca de um terço a metade dos pacientes com TVP pode desenvolver a Síndrome Pós-Trombótica. Isso ocorre porque o processo de cicatrização do coágulo pode danificar as microválvulas venosas, que servem para impedir o refluxo do sangue em direção ao pé. Com as válvulas destruídas, o sangue se acumula, gerando hipertensão venosa crônica, inchaço persistente, escurecimento da pele, varizes secundárias e, nos casos mais graves, úlceras de difícil cicatrização.


Quem tem maior risco de desenvolver trombose?

A trombose pode atingir indivíduos saudáveis ou com doenças crônicas, mas certos fatores elevam expressivamente a probabilidade de um episódio:

  • Imobilização prolongada: Ficar restrito ao leito por dias após uma doença ou permanecer sentado por longos períodos (como em viagens aéreas ou terrestres acima de 4 horas).
  • Cirurgias e internações hospitalares: Procedimentos ortopédicos de grande porte (próteses de quadril e joelho), cirurgias oncológicas e bariátricas apresentam alto risco trombogênico se não acompanhados de profilaxia adequada.
  • Câncer e tratamentos quimioterápicos: A atividade tumoral ativa a coagulação e eleva o risco trombótico.
  • Alterações hormonais: Uso de anticoncepcionais orais com estrogênio, terapia de reposição hormonal (TRH), fertilização assistida, gestação e o período do pós-parto (puerpério).
  • Idade: O risco aumenta progressivamente com o avançar da idade, sendo mais expressivo após os 60 anos.
  • Obesidade, tabagismo e sedentarismo.
  • Trombofilias: Condições genéticas ou adquiridas (como a Síndrome Antifosfolipídio) que alteram os fatores de coagulação.
  • Histórico pessoal ou familiar de trombose venosa ou embolia pulmonar.

Diagnóstico: Como o cirurgião vascular confirma o quadro?

O diagnóstico nunca deve ser feito apenas pela observação clínica ou achados isolados de exame físico. Para uma identificação precisa, utilizam-se protocolos estruturados:

  1. Avaliação clínica e estratificação: O especialista avalia a história médica, os fatores de risco e emprega escores de probabilidade clínica (como o Escore de Wells).
  2. Exame de sangue (D-dímero): É um marcador derivado da quebra da fibrina. Sua maior utilidade está na exclusão da trombose quando o resultado vem negativo em pacientes com baixa probabilidade clínica.
  3. Ultrassonografia Vascular (Ecocolor Doppler): É o método de escolha e o padrão de referência moderno para confirmar ou afastar a TVP. Realizado de forma não invasiva, indolor e sem radiação, permite visualizar em tempo real as veias, avaliar sua compressibilidade e mapear o fluxo do sangue e eventuais coágulos.

Tratamento e prevenção: Cuidando da sua circulação

O tratamento deve ser iniciado de maneira imediata assim que houver confirmação ou forte suspeita.

  • Uso de anticoagulantes: Medicamentos como os novos anticoagulantes orais diretos (DOACs), heparinas injetáveis e antagonistas da vitamina K formam a base terapêutica. Seu papel principal é frear a expansão do coágulo e evitar que ele se fragmente ou cause novos episódios, permitindo que os mecanismos naturais do corpo façam a reabsorção gradual do trombo.
  • Movimentação e caminhada: Diferente do repouso absoluto indicado no passado, a deambulação precoce e o movimento seguro são incentivados para restabelecer a circulação.
  • Meias elásticas de compressão graduada: Auxiliam no retorno do sangue venoso, diminuem o edema e aliviam o desconforto diário
  • Intervenções invasivas (em casos selecionados): Em situações pontuais com obstruções extensas na virilha e pelve ou membro gravemente comprometido, métodos como a trombólise e trombectomia com cateteres específicos podem ser considerados para a remoção precoce do coágulo.

Dicas práticas para prevenir a formação de coágulos

  • Ative o seu “segundo coração”: Os músculos da panturrilha bombeiam o sangue de volta em direção ao coração. Em viagens longas ou no escritório, levante os calcanhares e as pontas dos pés repetidamente e levante-se para caminhar a cada 1 a 2 horas.
  • Mantenha-se hidratado: A ingestão adequada de água reduz a viscosidade sanguínea e o risco de estase.
  • Evite o tabagismo e controle o peso corporal.
  • Informe seu médico antes de cirurgias ou viagens longas: Conhecer o seu perfil de risco permite que medidas profiláticas com medicamentos ou meias sejam adotadas a tempo.

Se você apresenta inchaço súbito, dores incomuns nas pernas ou possui fatores de risco na família, consulte um cirurgião vascular para uma avaliação detalhada e mantenha seus exames em dia

Referências usadas para confecção desta postagem:

  1. Burihan MC, Campos Júnior W, editores. Consenso e atualização na profilaxia e no tratamento do tromboembolismo venoso. 1. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019. 56 p.
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  3. Miranda RB. LIVE: Dia Mundial da Trombose – Fique atento! [vídeo na Internet]. São Bernardo do Campo: Canal Robson Miranda / Clínica Fluxo de Cirurgia Vascular; 2021.
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